Uma Gaiola sobre o Mar

Caroline sempre ouviu de seu pai que para se viver bem, uma pessoa deve cuidar da saúde e juntar um bom dinheiro para a velhice e cresceu imaginando que tinha a receita do sucesso em mãos.

Formou-se em Direito, passou em um concurso público e então começou sua vida de adulta: em um ano já conseguiu alugar um apartamento para morar sozinha e no ano seguinte, começaram suas viagens. Primeiramente foi para o sonhado Recife, depois partiu para as internacionais: Chile, em seguida Estados Unidos e finalmente, a Europa, indo para a iluminada França.

Mas ao final de apenas cinco anos, não se reconhecia mais. Havia uma perturbadora dicotomia entre trabalhar versus gastar o dinheiro que a corria cada vez mais. Economizar e ao mesmo tempo poder curtir a vida ao máximo pareciam coisas que não combinavam de forma alguma. Além disso, o trabalho que executava tão bem, começou a se revelar um verdadeiro tormento, porque a medida que os processos iam aumentando em sua mesa, ela não tinha mais tanto tempo quanto gostaria e nem força mental para chegar em seu apartamento à noite e ainda ter disposição para escrever seu primeiro romance.

Sim, ela amava ajudar as pessoas, porém, quanto mais caso pegava, mais se sentia drenada e longe de realmente ter qualidade de vida e começou a notar que embora suas amigas e família orgulhosa vivessem dizendo que ela tinha uma vida incrível, por dentro, só ela sabia como se sentia angustiada e as coisas não pareciam mais fazer sentido. “Quanto mais eu ganho, mais quero gastar, mas menos me divirto, porque o que é um final de semana ou apenas um mês de férias, se depois desse curto período, eu já preciso voltar para a velha rotina?” Sem contar que a saúde já não estava lá aquelas coisas e precisou pegar um atestado após cair de molho com uma virose por estar sempre irritada e ter baixado sua imunidade.

Foi então que um dia explorando uma livraria nova em sua cidade, ela conseguiu encontrar um estranho livro infantil que lhe chamou muito a atenção, intitulado “Uma Gaiola sobre o Mar”. A capa atraente representava bem seu estado de espírito: pusilânime, com o céu escuro, e até pensou que deveria haver um erro para um livro assim estar na sessão infantil. De qualquer forma, assim que leu a sinopse, sentiu seu coração acelerando e a fome por ler um livro que prometia ser muito especial a dominou.

No caixa teve que ouvir mais uma pergunta que a incomodava muito: “É presente para seu filho? É para uma menina ou para um menino?”, e sempre tinha que responder que não era para nenhum dos dois, porque ainda não tinha filhos. Só que apesar de toda a pressão para ter filhos, o que ela queria mesmo era ter tempo para criar outras coisas, acompanhar o crescimento de outros sonhos e dedicar sua vida a algo completamente diferente do que estava vivendo.

Por isso que a história foi lhe encantando tanto: em um vilarejo antigo viking na costa da Noruega haveria uma competição de embarcações anual, mas um senhor de muita idade não tinha dinheiro o suficiente e nem materiais para construir um barco a tempo de poder concorrer.

Triste e confuso com sua situação, começou a orar para Odin para que pelo menos o Senhor dos Deuses pudesse confortar seu coração aflito, até que pela manhã, teve a ideia de assim que um instrumento foi tocado para iniciar a competição, soltar uma gaiola vazia que era tudo que tinha sobre o mar; e acabou que, pela pressão das caravelas na água, a gaiola foi deslizando até chegar primeiro que qualquer outra embarcação na linha final representada por umas rochas a vários metros da linha da praia.

A lição era que mesmo que ninguém entendesse o que ele tinha conseguido, todos viram que a gaiola foi o primeiro objeto a passar entre as rochas do limite da prova e, para ele, isso já era o suficiente, porque ele conseguiu compreender que apesar de terem criado todo um sistema e regras do que ele deveria fazer para ser bem-sucedido, na verdade, o sucesso dele não era da mesma forma que os outros desenharam ou nem precisou das mesmas ferramentas que eles para conquistar o que queria: ele teve que criar o próprio jeito dele, e foi assim que as coisas enfim funcionaram.

Após a leitura, Caroline fechou o livro com a fábula e fez o mesmo que o senhor da história: deitou e orou para que seu coração também fosse lavado por águas poderosas que lhe livrassem de toda a sua angústia e assim pudesse ver o que poderia fazer para viver a vida de sua própria forma e não mais de acordo com o que os outros achavam certo e que ela já tinha visto que para ela era inútil.

“Minha reza foi mesmo forte!”, ela pensou vibrante apenas um mês depois daquele fim de semana tão marcante, porque já tinha pedido exoneração, estava vendendo seus contos com sucesso na internet e o mais intrigante de tudo: certa tarde voltando de um encontro com seu namorado, ela avistou uma gaiola encostada em um contêiner perto da entrada do seu prédio e não hesitou em pegá-la e com carinho, lavou-a e a colocou em sua varanda para ser o símbolo de que agora nunca mais deixaria ninguém prendê-la de forma alguma.

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