As Três Fadas de Bronze

Marjorie, Tiffany e Perséfone viviam ao redor de um chafariz. Embora os ricos donos daquela propriedade nem sequer imaginassem que aquelas estátuas de bronze pudessem conter algo além de um espaço oco por dentro, as três estavam ali há tempos imemoráveis.

-Como eu queria que essa fonte jorrasse champanhe! – disse Tiffany, sonhadora, em certo entardecer de um dia qualquer.

-Ah, lá vem você com outro de seus papos estranhos – reclamou Perséfone, toda empertigada, segurando sua harpa mas com mãos imóveis.

-Por que de champanhe?Eu preferiria que essa fonte nem jorrasse água. Estou cansada de ficar com meus pés molhados por tantas décadas – indignou-se Marjorie, segurando seu astrolábio que nada media.

-Porque pelo menos isso seria mais animado – continuou Tiffany, ainda esperançosa apesar dos protestos das outras.

-Animado? Aqueles velhos ricaços nem devem saber o que isso significa. Tanto dinheiro e só sabem ficar rodeados de arte velha e de gente chata. Saudades do rei de um milênio atrás, que pelo menos tinha aquele bobo da corte que vinha comer a rainha perto de nós, e pelo menos nos divertíamos mais – comentou Perséfone, rindo sem expressão visível para olhos normais.

-E eu sinto saudade de quando aqui passou o exército dos romanos. Ai, como eu amava aquele cheiro de corpos sangrando e caindo com cada flechada e espadada. Aqueles sim, eram tempos perfeitos – disse Marjorie, com olhar sádico, mas que só suas irmãs poderiam perceber.

-Uma é pervertida e a outra psicopata… – indignou-se Tiffany.

-E você a eterna criança com seus sonhos tolos – defendeu-se Perséfone, com amargor.

-Não quero ofender vocês, apenas eu preferiria o alquimista que montou essa fonte. Ele sim tinha magia nas veias e todo dia com ele era encantador. Depois que ele morreu e outros donos vieram, tudo se tornou tão apático… Mas não tanto como agora – explicou Tiffany, nostálgica.

Nisso as três puderam concordar.

-E o que podemos fazer?Nem podemos sair do lugar. A não ser que joguem uma bomba sobre nossas cabeças, aí nossos pedaços poderiam se mover um pouco para mais longe – disse Marjorie, com seu sincericídio típico.

-Ela tem razão – decretou Perséfone. – Não podemos fazer nada além de esperar que o tempo nos deteriore ou que os nossos donos decidam quebrar-nos e nos jogar fora.

-É… o jeito é nos consolarmos e esperar por uma dessas coisas e deixar que a morte nos encontre, ou notarmos que se podemos falar e sonhar então é lógico que devemos poder bem mais e…

De repente a coluna, que ficava no meio onde ao redor em um círculo de pedra ficavam as três fadas, desceu bem diante delas, e toda a água começou a escoar para dentro de um buraco onde ficava a coluna.

-Caramba! Será que essa fonte é de desejos e nunca percebemos? – intrigou-se Marjorie, que percebia que agora nenhuma água mais molhava seus pés.

As outras duas mal podiam falar de tão chocadas ao ver que, em seguida, três borboletas de luz saíram da fonte e sentaram sobre o nariz de cada uma; e quando voaram para o céu, perdendo-se em um brilho levado pelo vento, as três, assim que voltaram a olhar para baixo, não eram mais estátuas, mas humanas.

-Deve ter sido um feitiço do alquimista! Por todos esses anos, a solução para nossos problemas estava bem na nossa frente, mas talvez só hoje por estarmos conversando sobre o que desejávamos, a fonte que é mesmo dos desejos ativou e…

Tiffany se calou, percebendo que enquanto falava empolgada, estava com os olhos fechados de tão feliz e nem tinha visto que as irmãs não estavam mais com ela.

-O quê? Cade você, Marjorie? Pare com essas brincadeiras de sumir sem graça, Perséfone! – disse ela, começando a se apavorar e a querer chorar.

-Não chore, querida – disse a voz de um homem de capuz lilás e segurando um astrolábio e uma harpa até deixar os objetos perto dela que ainda estava com a palheta de pintura que sempre segurara. Ela sabia muito bem quem era aquele homem.

-É você, Alquimista!?

-Sim, Tiffany. E não fique triste: suas irmãs estão tendo agora exatamente o que querem! Perséfone está em uma corte real e Marjorie está no meio da grande guerra civil romana: ambas vivendo de fato as emoções que queriam.

-Não, você não entendeu! Elas não queriam nada disso! Isso tudo ou é perigoso ou então é o quê? No passado? Então elas não vão gostar porque não estamos todas juntas como sempre e nem aqui e agora.

-Não posso fazer nada, meu amor. Cada pessoa que deseja algo com muita emoção, vai receber exatamente o que quer, mesmo que ache que não queira. Cada uma desejou hoje tão forte estar em uma determinada época ou situação, que concretizou isso.

-Então quer dizer que não precisávamos ter passado por tantos séculos presas e paradas? Era só desejarmos algo diferente e pronto, sairíamos dessa fonte e voltaríamos a ser mulheres normais?

-É isso mesmo – afirmou o Alquimista, satisfeito que enfim uma das irmãs entendera a charada que formou o feitiço que as prendera por tanto tempo.

E Tiffany teve que aceitar as explicações do Alquimista como verdadeiras por mais que doesse. Sorte dela de ter querido exatamente o que seu coração queria, e assim o recebera e azar das outras irmãs que terão que encontrar mais uma fonte dos desejos que funcione tão bem.

Por Gigi Pormei

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