Um Anjo no Campo de Trigo

Miguel abriu seus olhos e viu apenas um céu muito azul sem quase nenhuma nuvem. Ao longe podia-se ouvir o toque suave de harpas que enchia o ar de uma paz absoluta. Uma paz que não tinha nada a ver com as últimas cenas que ainda estavam vindo como flashes em sua mente: o acidente com o trator na sua fazenda; o momento em que capotou em uma subida; o peso esmagando suas costas ensanguentadas; os funcionários desesperados vindo ao seu socorro e dentre eles… uma figura masculina extremamente dourada mas que assim que se aproximou mais da porta do trator que ele tinha acabado de comprar e testava para mostrar para o funcionário que iria utilizá-lo, ele desmaiou e então, não se lembrava de mais nada.

Olhou para suas mãos que estavam limpas, virou o pescoço o que pôde para ver que suas costas estavam inteiras e sem fraturas, e para suas roupas que não eram mais a sua calça, camisa e botas de fazendeiro e ficou desesperado.

-Isso não deve ser a área ao ar livre de um hospital… – Miguel refletiu pesarosamente, com a voz embolada sem querer admitir a conclusão que lhe surgira e quando estava prestes a chorar pela primeira vez – se bem que nem mais poderia dizer “em sua vida” -, sentiu uma mão tocar com gentileza seu ombro.


A mão era estranhamente dourada e quando se virou para olhar quem era, levou um baita susto: o ser que estava ao seu lado olhando-o com muito amor e pureza definitivamente não era humano. Mas será que ele mesmo ainda poderia ser chamado de humano? Até porque ele se assustou ao notar que andava para trás para se afastar do ser e não havia nada debaixo de seus pés além do céu densamente azul.

-Calma, Miguel eu vim lhe recepcionar! Seja bem-vindo ao céu, meu caro. Sou seu anjo da guarda, Rael.

Sem dúvida aquela era a apresentação mais bizarra que ele já ouvira.

-Olha, Rael, por favor pede para alguma enfermeira ou o doutor reduzir a dose da morfina, porque definitivamente estou delirando.

O anjo deu uma risada doce que parecia a de mil crianças felizes.

-Você me deu bastante trabalho, mas sempre gostei das ironias que você falava para as pessoas. Por que você não está feliz, meu amigo? – comentou Rael, também comovido com o rosto triste de Miguel. – Você está no céu! Meus parabéns! – o anjo apertou efusivamente a mão dele. – Se bem que do jeito que o mundo está de pernas para o ar, tivemos que abaixar nossas expectativas e exigências para mais almas chegarem. Você sabia bem o que são os negócios, né?

Miguel pensou que a criatura esquisita estava fazendo graça com a cara dele e se irritou:

-Como estou no céu? Eu moro no Brasil! Eu sou dono da Fazenda Trigo Dourado em Goiás, a maior fazenda de trigo do estado, e estou cansado já de suas brincadeirinhas. Tire essa fantasia, pare com essa piada. Isso está passando na TV?

-Agora você não é dono de mais nada. E não, não estamos na TV. – O anjo continuava rindo e Miguel estava cada vez mais colérico.

-Acalma-se, senão você não vai ficar nem um dia no céu e já vai ir para o inferno. Você nunca foi uma pessoa muito irada.

-Pois qualquer lugar que não seja a minha fazenda já é um inferno sim! Se isso não é um programa de péssimo gosto de piadinhas da TV, onde estou?

– Já falei: você morreu e está no céu. Agora, fique calmo e escute essas harpas tão lindas. Aqui não precisamos esquentar a cabeça com mais nada – avisou o anjo com olhar perdido, curtindo a música.

-Como eu morri? indagou Miguel, perplexo. – Eu nem me aposentei ainda! Você deve estar me confundindo com meu pai, que morreu há dois anos.Todos dizem que sou parecido com ele. Ache-o em outro lugar e me leve de novo, por favor. Eu mando meu contador lhe pagar pela viagem.

-Seu pai está em outra sessão do céu e depois de algum tempo, você também poderá ir lá, mas talvez até lá, ele já tenha reencarnado ou se mudado de novo.

-Cara, você não vai mesmo parar com esses papos de louco, não é? Já sei: por causa dessa pandemia, não tinha leito no hospital e me trouxeram para um hospício. É isso, não?

-Toda essa sua resistência para aceitar sua morte o fará não passar no probatório daqui e lá no purgatório não tem musiquinha e nem essa brisa boa. Então, não é melhor se sentar e pronto? – O anjo enfim ficou sério e Miguel viu que não tinha jeito e precisava ser mais flexível e diplomático.

-Olha, talvez eu fui um pouco rude e peço-lhe desculpas, mas não faz o menor sentido dizer que estou morto. Eu me sinto bem e… – Miguel viu que ao pôr a mão no peito para se referir a si mesmo, sua mão atravessou e saiu pelo lado das costas. Assustou-se de novo, e o anjo voltou a rir mais descontraído.

-Acabou Miguel, agora o baile é outro.

-Quê? Você é um anjo ou um funkeiro para falar comigo desse jeito? Nada acabou, pelo contrário, eu tenho muito trigo para mandar moer e passar para meus fornecedores enviarem para padarias e servir todo o centro-oeste brasileiro. Então se isso for um sequestro, eu tenho muito dinheiro para lhe pagar, tanto que você vai poder comprar quantos potes quiser de glitter dourado para colar nessa sua cara sonsa.

-Eu lhe conheço desde o berço e sei tudo que passa em seu coração. Eu sei o porquê de você não estar querendo aceitar.

-Então é melhor minha mulher não lhe conhecer, senão vai lhe contratar para me dedurar para ela.

-Seu tempo acabou na Terra. Aceita que dói menos.

-Cara, cansei desse papo. Eu tenho muitos contratos e compromissos, estou só perdendo tempo e… – Miguel levantou-se e saiu andando, querendo ir embora e então, caiu da nuvem muito azul em que estava, desfazendo o que estava acreditando antes que era estar flutuando no céu.

-Você só vai criar asas na semana que vem, seu doido! -Rael voou e conseguiu pegá-lo e o trouxe de novo nos braços para a nuvem onde estavam.

-Se estou morto, então, qual diferença faria eu cair? – questionou Miguel, com desdém. -Eu não iria me esborrachar mesmo.

-Não, mas cairia em outra sessão e iria incomodar os outros e por enquanto, você está sob minha responsabilidade. Estou aqui para lhe ajudar no seu probatório.

-Sinto lhe informar mas não me sinto nem um pouco ajudado por você – contrariou-o Miguel. – Você só fica com essa conversinha ridícula de que morri.

-Sim você morreu. O acidente no trator novo foi fatal. O seu advogado já processou a empresa, com ganho de causa e sua mulher está mais rica ainda e está com o advogado agora. E já venderam a fazenda para aquele seu vizinho concorrente que você não gostava nem um pouco. Lá não tem mais nada para você – Rael passou a revelar tudo de uma vez só para Miguel, congelado com as notícias.

“E quem sente muito por informar algo sou eu para você, Miguel. Eu sei que você gostaria de viver mais, ou melhor, de começar a viver assim que estivesse ainda mais rico, só que este foi o problema de sua existência: você só trabalhou e não viu a vida passar. Até na praia quando sua mulher enjoava de lhe pedir para levá-la, você levava era o notebook para ficar vendo seus apps de agricultura, chats para falar com os fornecedores e só não dormia e acordava no campo de trigo, porque dava coceira. O resto, você fez e fez demais.

“Também sinto lhe informar que você caiu no erro de só pensar no dinheiro e agora está tudo com sua mulher, que nem mesmo comia do fruto do seu trabalho pois pão engorda e ela queria manter o corpo em forma para seu advogado.”

Miguel ficou com tanta raiva que tentou socar o anjo na cara, no entanto, seu punho atravessou para trás da cabeça do anjo que continuava sem expressão e sem surpresa.

-Isto é uma infração grave e vou ter que descontar de você. Agora vai levar duas semanas para ter asas.

Miguel estava tão arrasado que até o estoque de respostas ácidas tinha acabado.

-É triste, mas você não é o primeiro e nem será o último que desperdiçou seu tempo de vida na Terra. E olha que fiz de tudo para lhe ajudar: inspirei sua esposa para insistir para que vocês saíssem mais; sussurrei na orelha de seu filho para que ele continuasse pedindo para que você brincasse mais com ele; até fiz com que seus funcionários entrassem em greve para pedir mais feriados, mas aí você inventou que queria carregar as sacas de trigo sozinho naqueles dias.

-Então, trabalhei feito um burro de carga e quem vai ficar com toda a minha grana é minha mulher que nunca levantou um dedo para me ajudar e meu filho que nem sabe ainda o que é trigo e o que é erva daninha?

-Sim.

-E agora, tenho que me contentar em ficar aqui sentado com você, sabe-se lá até que horas – se é que aqui tem horas -, ouvindo harpa?

-Sim.

-E não posso fazer mais nada porque morri?

-Sim.

-Você agora só sabe falar sim?

-Não.

E de repente Miguel sentou-se parecendo que chorava, com a cabeça entre os joelhos, só que na verdade, o som foi mudando até ficar como uma gargalhada persistente e acabou aceitando a própria desgraça. Afinal, um maníaco por controle sempre chega num certo momento em que a vida ou a morte mostra quem tem mais controle.

Por Gigi Pormei

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