Sonhando Acordada

Berenice desde pequena tinha muitos sonhos estranhos que a apavoravam e a chocavam demais e que apareciam como visões ora durante seus ataques de epilepsia, ora em seus sonos normais.

Seu pai, um homem muito espiritualista e de mente aberta, não hesitou em levá-la para todos os lugares onde pudesse haver alguém que a ajudasse – tanto desse mundo como de outro mundo, se fosse necessário.


Mas isso não aliava em nada seu cotidiano difícil, marcado por muito bullying e incompreensão das pessoas.


-Você só sabe ficar dormindo em qualquer lugar; você não tem cama na sua casa para dormir à noite, não? – Diziam desde os alunos do primário até a faculdade; todos sem entender sua epilepsia que atacava esporadicamente, mas sempre de forma vergonhosa para ela.


-Desculpa, Berenice, o problema não é você sou eu. Sou eu que tenho medo dos seus gritos à noite, ao ponto de parecer que tinha um bandido no nosso quarto naquele motel. – Falavam seus namorados, um após o outro dando-lhe foras porque não entendiam suas premonições e sonhos intensos.


E assim passou anos sozinha e envolvida em todo tipo de prática mística e espiritual, remédios, idas a especialistas e mergulhada numa baita sensação de vazio e frustração por nada livrá-la da angústia de prever coisas com suas premonições trágicas ou de sempre sonhar com coisas grotescas, mesmo que seu pai o tempo todo tentasse encorajá-la:


-Calma querida, você apenas é tão especial, mas tão especial que é por isso que ainda nem encontramos uma solução que resolva seu caso; mas deve haver algum jeito sim ou então a gente inventa.

Porém, infelizmente Rogério, o pai dela, morreu antes de alguma solução aparecer.

E se já não bastasse a dor de perder a única pessoa até ali que tentava entendê-la e ajudar, ainda aconteceu outro evento estranho no dia do velório.

-Nossa, mas será que nem no dia em que estou perdendo meu pai eu vou ter um dia como o de uma pessoa normal? – reclamou ela ao perceber o murmurinho ruidoso entre as pessoas que estavam no funeral de Rogério, pois um homem muito estranho de sobretudo preto e chapéu marrom pintava próximo ao corpo sendo velado uma imagem tão bonita de seu pai rodeado de anjos; mas o mais exótico era que ele fazia isso de olhos fechados, sem nem ver as aquarelas em que molhava seu pincel para fazer o quadro.

Berenice adiantou-se entre as pessoas, pasma, e disse no meio de todo mundo:

-Quem é o senhor? O que faz aqui?

-Meu nome é Raul, sou um pintor médium. Seu tio disse que eu poderia vir hoje e eu trabalho em funerais, mostrando para as pessoas que a morte não é o fim.

-Tinha que ser ideia do tio Carlos… Tudo ele tem que transformar em comício agora, porque quer sair para deputado – indignou-se por dentro Berenice, contudo, assim que se aproximou do quadro e viu seu pai com o mesmo rosto gentil e amoroso de sempre e ainda rodeado de anjos, frescos de tinta, ela se arrepiou toda e Raul notou, acrescentando:

-Nossa, dá para ver que você tem sensibilidades. Se você se interessar, está aqui meu cartão. – E sem nem esperar uma resposta, Raul guardou suas coisas e partiu, deixando o quadro de presente para a família de Berenice.

-Agora que não vou mesmo dormir esta noite e vai ser a primeira na vida em que não durmo – pensou ela naquela mesma noite, ansiosa pelo dia seguinte e poder encontrar Raul novamente e tentar ver com ele que história era essa de “sensibilidades”.

Era por sorte um fim de semana e foi até o endereço no cartão do homem misterioso, claro que de carro e com um medo danado de estar atrás de um louco, mas ele morava em um bairro tradicional numa rua típica de famílias antigas da cidade e o local era na verdade um ateliê que dava aulas de pintura. Na garagem adaptada havia quadros dos alunos e Berenice sentiu-se mexida só de ver aquela riqueza de cores e formas tão sublimes.

-Oi, posso ajudá-la? -perguntou-lhe uma mulher por volta dos quarenta anos, de coque, com um vestido de bom gosto cor de vinho e um sorriso acolhedor.

-Então, eu conheci um senhor ontem no…enterro de meu pai – disse ela, ainda com pesar – …E ele me deu este endereço e gostaria muito de fazer algumas perguntas para ele.

-É Raul, meu marido. – Ela riu já sabendo como ele agia com as pessoas e o tipo de trabalho que fazia. – Pode entrar, querida. Ele saiu levar nosso cachorro passear porque hoje a escola só abre à tarde, e logo ele vai voltar. Aliás, meu nome é Paula. Aceita um café, um suco?

Berenice aceitou um suco de maracujá, pois não estava ainda muito relaxada e confiante. Apesar de Paula ser muito gentil e explicar que a maioria dos quadros foram também pintados por médiuns como seu marido, ainda assim, ela estava receosa sobre as respostas que receberia.

De repente ela ouviu latidos e Raul apareceu na sala com um são bernardo imenso que assustou um pouco Berenice, mas Raul explicou que ele não queria avançar por mal, e sim que adorava fazer festa sempre que aparecia alguém na casa.

-Você veio rápido. Pensei que hesitaria mais – disse Raul após acomodar-se no sofá defronte ao dela e com uma sinceridade que a irritou. Paula estava no quintal dando comida para o cachorro.

-Eu não tenho porque ter hesitações e era para o senhor se sentir na verdade incomodado e envergonhado por sem nem me conhecer dizer aquelas coisas.

-Quê coisas? Que você é médium? Que se interessou até demais por aquela minha pintura, mesmo que seja sobre seu pai, porque sentiu identificação?

-Quem disse essas coisas para o senhor? Foi o linguarudo do meu tio Carlos? – Berenice já tinha visto várias vezes seu pai se lamentando com o irmão sobre a saúde e situação da filha.

-Quando a gente tem sensibilidade, tem muita coisa que nem precisa ser dita, minha filha. – Berenice ficou perplexa com a resposta, todavia não era o suficiente.

-Se você quiser eu tenho umas telas em branco e também paleta no almoxarifado que ainda não levamos para nenhuma das salas. Venha, você pode experimentar e ver por si mesma, o que acho bem mais proveitoso do que se você apenas ficar aí sentada lutando para entender uma coisa que é muito natural e escapa de qualquer raciocínio.

Berenice aceitou e o acompanhou até uma sala próxima à sala de estar. Em todas as paredes havia alguma pintura ou quadro e mesmo fotos daquele casal que parecia ser tão feliz, sempre se divertindo em exposições artísticas pelo mundo ou em viagens para lugares espiritualizados.

Raul falou em tom amistoso:

-Pode usar as tintas como quiser e também essa tela e se sentir que precisa de mais, aqui tem várias ainda. Fica tranquila que isso é um demonstrativo e um presente que Paula e eu costumamos dar para pessoas como você que ainda está para descobrir o talento. Quando terminar, pode chamar.

A porta bateu e Berenice ficou com cara de sem entender nada. O local era confortável e higiênico, amplo e bem cuidado, tanto que ela tinha até medo de se mover e bater em alguma lata de tinta e fazer sujeira.

-Caramba, porque eu inventei de vir aqui? O que eu vou fazer agora? Por que aquele cara não me deixou fazer mais perguntas para ele?

Foi então que ela teve a ideia de protestar tudo que sentia fazendo um bendito quadro nem que fosse para jogar na cara dele e ir embora. Não que tivesse achado que Paula merecesse algum destrato, porém, ela estava furiosa com Raul e sua falta de diálogo.

Pegou um pincel, achou um pote de tinta vermelha e fez um traço de cima abaixo da tela – vermelho como sua raiva.

Mas era pouco e se considerava ainda uma idiota pois não entendia o que estava fazendo ali.
Vendo que não iria render, mexeu na maçaneta, só que a porta tinha sido trancada.

-Oh não, isso nunca é um bom sinal – apavorou-se, lembrando-se de vários filmes de terror que já assistira antes.

Tentou bater, gritar, chutar e estava entrando em pânico, tanto que acabou tendo um ataque epiléptico e caiu inconsciente: o que poderia ter sido fatal, se não fosse por acordar em uma cama, com Paula ao lado e um médico se despedindo.

-Querida, desculpa! A porta está com problema na fechadura e o chaveiro só vai poder vir na segunda e esqueci de avisar ao Raul. Quando eu disse para ele, ele arrombou a porta e você já estava caída e chamamos o doutor Célio. Como você está se sentindo?

-É… eu tenho epilepsia e isso acaba acontecendo às vezes, mas não é tão grave assim, eu só tipo sinto muito sono e sempre desmaio. Mas estou tomando remédios. Acho que me zanguei demais e em vão por isso tive uma recaída. – Ela reconheceu e corou de culpa.

-Pelo menos você conseguiu! – celebrou Raul, entrando no quarto com uma batida educada na porta para ver se poderia entrar, antes, no que Paula tinha dito que sim.

-Consegui o quê? – indagou Berenice, curiosa.

E com a ajuda de Paula, Berenice foi levada dessa vez para a garagem onde seu quadro pintado estava exposto junto de outros. Ela ficou atônita com o resultado expressivo e intensamente vibrante que estourava diante de seus olhos, revelando com cores vivas de vermelho, laranja e amarelo toda a vivacidade que tinha por dentro de si mesma; ainda que não lembrasse de ter feito algo tão bonito assim. E Raul enfim explicou o que ela tanto queria e veio buscar ali:

-Você tem o talento da pintura mediúnica. Se você costuma ter sonhos intensos e até pesadelos… premonições…visões… tudo isso também é um sinal de sua sensibilidade para imagens e um aviso que seu maior poder está em seus sonhos. Se você se deixar sonhar acordada mais vezes e não ter medo de usar sua imaginação, mesmo que tenha sofrido com pessoas que não lhe entendem (até porque em geral algumas pessoas não entendem quem somos) você descobrirá que pode ver e crescer muito mais sonhando acordada, enquanto que a maioria só sabe sonhar quando dorme.

Paula e Raul deixaram Berenice levar seu quadro que fez em transe. Já na segunda, inscreveu-se para as aulas e começou a estudar com afinco quem era, finalmente achando respostas até por si mesma e entendendo que o que ouviu a vida inteira de que era uma maldição o que fazia e tinha, na verdade, era um lindo talento.

Com o tempo, decidiu ajudar outras pessoas por meio de terapias com pintura para que também pudessem desbloquear seu sonhos e não ter mais medo de sonhar como ela um dia teve.

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