Tarefas Inacabadas

Caíque saiu da casa de uma cigana muito atormentado.


-Não pode ser real o que aquela mulher falou… Meu mapa deve estar errado. – Ele olhava para sua carta astrológica, desconsolado em saber que apesar de pesado e doloroso aquele mapa correspondia exatamente com o que sentia e dava uma justificativa precisa do porquê ele estava vivendo uma vida que não tinha nada a ver com o que de fato queria estar fazendo.

Ele era operário de uma fabricante de munição militar e para segurança pública e com o crescimento de guerras civis pelo mundo, o que não lhe faltava era trabalho.

Logo depois de enfim conseguir não ter mais que pensar apenas em como arranjar o próximo prato de comida, já pôde equipar sua casa e procurar alguma distração, mas nem os games em realidade virtual e aumentada com óculos adaptados, nem mesmo mulheres robóticas eram o suficiente para aplacar seu constante vazio interior.

-Vamos, Caíque, você já está muito bêbado… Ainda bem que agora com esses carros autônomos não precisamos nos preocupar com dirigir, a não ser com sua ressaca e amanhã é dia de trabalhar de novo – falou-lhe seu amigo Fabrício, em um bar moderno com atendentes robóticos e carta digital de bebidas que podia ser acessada só tocando na mesa com touchscreen.

-Che-chega! Eu não… hic!.. não vou mais para o tra-trabalho amanhã – falou Caíque com voz de bêbado e soluçando.

-O quê? Você está maluco, rapaz? Hoje em dia quase não tem empregos e você aí querendo desistir do seu? – Fabrício não podia acreditar no que ouvia. Por ele ser um engenheiro da mesma empresa, sabia como que era privilegiado em vista da grande massa de desempregados de 2350.

A própria TV led do bar tinha sido desligada, pois era o dia inteiro ficar bombardeando as pessoas com notícias de saques e depredações de populações revoltadas com a falta de empregos e de subsídios do governo ou então de avisos sobre manobras militares. Eram tempos de terror e incertezas e quem ainda podia trabalhar, tentava sobreviver em condomínios caros cercados por policiais.

-Eu fui numa cig..cigana – continuou Caíque tão tombado sobre a mesa do bar que o touchscreen estava num looping infinito mostrando todas as bebidas da casa, várias e várias vezes, debaixo de seu pescoço.

-E ciganas ainda existem? Num mundo desses? Vai ver porque robôs não sabem fazer macumba do tipo “trago seu amor em sete dias”, há,há,há – zombou Fabrício. – Aliás, você está tentando voltar com sua ex? Por isso foi atrás de uma o quê? Bruxa moderna?

-Não…A Renata nem está mais no país, ela foi transferida para a Europa. Mas ela me deu uma dica que eu resolvi seguir – respondeu Caíque, já melhor do efeito do álcool após tomar um sintético.

-Dica? – desconfiou Fabrício.

-Sim cara… Eu nasci para ser poeta e não armeiro, e estou é perdendo tempo na minha vida em uma função que nem gosto. Eu custei a entender isso e sem que ninguém soubesse, fiquei escrevendo sobre minhas dores em um caderno eletrônico e um dia que demorei mais para voltar para casa por causa de um projeto atrasado, ela, tão bisbilhoteira, acabou achando meu caderno, leu meus poemas e disse que era um desperdício eu estar numa vida dessas e não seguindo minha arte.

“E também percebeu que eu ando mais para baixo do que de costume e me disse que podia ser algum problema com meu espírito..minha alma…e essas coisas e que se eu fizesse um mapa astrológico, eu poderia descobrir a razão de minha tristeza e como resolver minha situação, melhor do que indo em qualquer médico. Como eu já estava ferrado, não custava tentar.

“Agora estou mais chateado ainda por saber que poderia ter sido um grande poeta e só desperdicei minha vida naquela linha de produção.”

-Sempre achei aquela Renata muito doida mesmo, acreditando em rezas e essas coisas antigas agora que a ciência é quem comanda e nos dá a resposta para tudo – comentou Fabrício, cortando o drama de Caíque que o olhou irritado. – Só que acreditar em arte é um absurdo maior do que ainda ter fé em alguma coisa, cara. Ninguém mais tem tempo para arte. Nossa vida agora é tentar sobreviver ou para quem pode, afundar-se em algo mais forte para esquecer essa porcaria toda.

-Sim, é uma droga ter nascido nessa época, mas as coisas não estão mais difíceis agora do que em outras vidas passadas minhas. A cigana também me explicou que eu já fui muito perseguido e preso várias vezes no passado e eu nunca consegui acabar nenhum livro meu e atingir minha realização pessoal – desabafou Caíque, porém, notando a cara de Fabrício de quem não entendia nada e achava tudo muito estranho. – É como se eu estivesse cheio de tarefas inacabadas – os meus livros – de vidas passadas, martelando em minha cabeça, cobrando-me para eu fazer com que existam finalmente. A diferença é que agora eu pelo menos tenho consciência do porquê sou tão infeliz – encerrou ele, tentando se explicar para o amigo que continuava olhando-o com descrédito.

-E louco também, porque livros são uma coisa tão desatualizada hoje em dia… – desencorajou-o Fabrício. -Ninguém mais escreve livros, meu caro. As pessoas tomam sintéticos para tudo e assim instalam direto na mente todo tipo de informação, quando não usam implantes e bluetooth. E ninguém mais liga para ficar lendo, as pessoas só querem vídeos. Os poucos livros que restaram estão em museus e ninguém se importa. Essa cigana só está três séculos para trás, viu.

Caíque passou seu celular na mesa e pagou pelo seu consumo e fez que tinha aceitado a conversa de Fabrício, mas quando chegou em seu apartamento, já sabia que iria varar a noite acordado e de fato não apareceu na empresa nem no dia seguinte, nem na semana toda.

Fabrício, muito preocupado, tentou ligar para ele, mandar videochamadas, porém, ele já tinha o bloqueado fazia tempo.

“Um artista precisa fazer sacrifícios.” Caíque concluiu e se isolou do mundo por vários dias, aproveitando o que tinha na poupança e sem nem se importar com o que poderia acontecer nos próximos meses, porque tinha de fato sentido que chegou em seu limite, e tudo que queria fazer era ficar trabalhando em seu livro e a cada estrofe nova ou verso novo, seu coração batia mais forte.

-Isso sim é me sentir feliz de verdade! – Ele comemorou no quadragésimo dia, olhando no computador seu livro pronto com mais de cem poemas transcritos de seu caderno.

O problema era que geralmente as histórias não eram convertidas mais em PDFs, mas passavam por um sofisticado software que transformava todo o conteúdo em vídeos para serem distribuídos ou comercializados em plataformas. Isto porque papel era extremamente raro de ser encontrado, e Caíque viu que para tornar seu trabalho num livro físico seria bem complicado.

“Se eu não dei um jeito antes, agora vou ter que dar”, ele prometeu para si mesmo e por sorte, tinha aprendido programação na escola e conseguiu criar um software de impressão como viu que já tinha existido há muito tempo para imprimir em papel normal com uma impressora também comum já que as impressoras 3D dominavam por toda parte.

Depois precisou recorrer a sites de colecionadores para ainda achar papéis comuns e uma impressora antiga, pagando uma nota preta em criptomoedas.

-Cara você é maluco em ter gastado com isso, viu. Eu estou economizando tudo que posso para estocar comida porque está para começar uma guerra, fique esperto! – falou o carteiro que veio entregar-lhe a impressora e os pacotes, e Caíque sentia mesmo que seu tempo era curto; contudo, estava orgulhoso de si mesmo por ter respeitado seus sentimentos largado de um trabalho maçante para passar seus últimos dias de liberdade fazendo o que sempre mais amou.

Muitas foram as noites que já ouvia o aumento da marcha dos soldados pelas ruas e nem mais abria a cortina pela manhã para não ter que ver lá embaixo os blindados do exército passando, sabendo que as coisas estavam para piorar em breve.

Contudo, apesar das dificuldades conseguiu agir a tempo naquela vida como tanto queria, e quando imprimiu a última folha, sentiu uma satisfação gigante porque não tinha mesmo outra chance e era sua última tentativa.

Seu sonho sempre fora o de ser poeta, mas foi obrigado a recalcar toda sua real intenção, submetendo-se a trabalhar em algo que de poético não tinha nada e de cruel até demais para poder se sustentar, e estava cansado daquela vida sem sentido e sentia remorso porque participou indiretamente da criação dessa guerra por ter passado anos ora fazendo armas, ora fazendo balas.

A guerra já tinha sido anunciada na TV e mísseis estavam cortando o céu de sua cidade, quando finalmente saiu com vinte cópias prontas em uma mochila grande e era tudo que tinha conseguido produzir com o parco material que felizmente conseguira.

Ele estava sem acesso à internet há dias porque a conexão tinha sido cortada pelo exército, então, não tinha nem como avisar seus amigos sobre seus livros novos e nem achava que alguém o entenderia e provavelmente agiriam feito o Fabrício, chamando-o de louco também por pensar em algo tão leviano no meio de um conflito bélico.
Só lhe restava deixar seus manuscritos distribuídos pelos bancos das praças da cidade, mesmo sabendo que uma bomba poderia acertar e quem iria finalmente distribuir suas ideias seria o vento.

Mas mesmo que fosse seu último dia de vida, estava feliz porque pelo menos sentiu que viveu de verdade pelo menos um pouco e não ficou apenas obedecendo aos outros, sem nunca ter tempo para si mesmo (como fizera com seu pai que também trabalhou como engenheiro bélico e tinha lhe mandado fazer o mesmo por achar que assim ele teria uma vida bem mais garantida do que como um mero poeta; e que acabou, com o tempo, só tornando seus dias uma amargura total.)

-Antes tarde do que nunca – Caíque disse para si mesmo, respirando aliviado quando deixou sua última cópia em mais um banco e ficou sentado ali pensando (sem nem ligar para os sons de explosões) que quem sabe ainda o vento pudesse levar suas histórias para algum lugar com um povo que soubesse viver em paz e que amasse a arte ao ponto de não ter deixado-a morrer, porque caso contrário, sem arte a própria vida perderia o sentido.

Por Gigi Pormei

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