Coração de Beija-Flor

Logo que eu o vi, meu coração se acelerou tanto que parecia que ia explodir em meu peito. Era nosso primeiro dia no curso de medicina veterinária e foi incrível saber que ele estaria na mesma sala que eu.

Mas eu era uma menina recém-saída do interior de São Paulo, e ele sempre vivera na capital. Para ele foi fácil se enturmar, enquanto que para mim foi bem mais difícil por causa de meu sotaque e jeito reservado.

Toda vez que ele respondia alguma pergunta, eu ficava observando-o e sonhando com o dia que ele viesse falar comigo, e assim foram se passando as semanas e depois os meses, sem no entanto eu ter nada do que eu queria.

As matérias foram complicando e eu decidi que por mais que eu flutuasse toda vez que ele entrava na sala, eu não teria mesmo nenhuma chance com ele, já que as outras garotas eram muito mais experientes, vividas e até mesmo mais bonitas do que eu.

“Só me resta me conformar com vocês…” – Eu pensava sempre que na hora do intervalo eu podia ficar com os livros de anatomia animal que eu tanto amava, só não sei se eu ainda os amava tanto como eu já amava aquele rapaz… Mas enquanto eu podia abraçar os livros, deslizar meus dedos por eles o quanto eu quisesse, aquele desejo de fazer o mesmo com ele parecia cada vez mais distante, pois sempre estava rodeado ora por amigos descolados e atléticos como ele, ora por garotas que não ficavam atrás de nenhum dessas que saem em capas de revistas masculinas e eu não tinha a menor coragem de entrar na roda dele.

Pelo menos não demorou em surgir uma oportunidade de eu fazer um estágio na clínica de minha prima, e logo o trabalho e a faculdade consumiram todo o meu tempo e nem conseguia ficar suspirando por aquele rapaz que já me arrebatou logo no primeiro mês da faculdade, porém eu nem ainda tinha tido coragem de falar nada com ele e já fazia quase um ano.

Só que a vida tem imprevistos e por isso que sempre amei a oportunidade de poder viver. Certo dia, enquanto eu terminava de preencher a ficha de cadastro de uma senhora com seu buldogue, ele entrou na recepção da clínica e fiquei congelada na mesma hora como se eu tivesse levado um dardo paralisante.

-Ei, não estudamos juntos? – ele me reconheceu, e eu deveria estar parecendo uma jacaré fêmea tomando sol de tão aberta que estava a minha boca e demorei para achar palavras.

– Sim… – respondi sem jeito, e ele apoiou os braços fortes no tampo da mesa, inclinando-se bastante em minha direção, com os olhos verdes claros estreitos e um sorriso nos lábios carnudos que me fizeram quase derreter na cadeira.

– Você deve ser a…

– Gláucia – respondi novamente, sorrindo da forma mais meiga que eu pude, mas meu coração batia mais rápido do que o de um beija-flor e estava difícil esconder dele o rebuliço que ele me causava.

– Ah, é… A garota mais brilhante da turma! Como pude me esquecer? – ele lembrou-se do apelido que o professor de biologia tinha me dado (e também todos os outros de forma geral.) Minhas notas realmente eram as melhores da turma, mas talvez porque eu preferia dispensar as festas e ficar estudando.

– E também a mais rápida para ter arranjado um estágio. Parabéns! – ele me cumprimentou tão contente, que parecia realmente estar feliz por mim.

– Ah, Pedro, você chegou! – minha prima apareceu, a Milena, falando com ele. E então eu fiquei mais alerta do que um suricate, pois eu ainda não o tinha visto ali na clínica e ele a cumprimentou parecendo um pouco nervoso como se já tivesse a encontrado antes e fiquei ali olhando os dois, sem entender nada e curiosa.

– Suas notas são tão boas quanto as da Gláucia, que aliás, é minha prima. Viu, por mim não tem o menor problema você começar hoje, se quiser. Ou amanhã. – Milena falou com Pedro de uma forma muito satisfeita, como quem tinha realmente sentido ter encontrado alguém bem profissional para o local. Já eu, estava ainda tentando unir os fatos, mas parecia uma barata desorientada.

  – Obrigado, senhora. E sim, se eu puder começar agora para mim também não tem problema – ele respondeu prontamente.

  – Então, está ok. Gláucia, você pode, por favor, explicar para ele como fazer o arquivo das fichas no computador? Eu acabei uma castração agora, mas preciso ligar para o fornecedor. Qualquer coisa podem me chamar.

  Quando minha prima saiu da sala, Pedro se voltou para mim e eu mal podia acreditar na minha própria sorte. Então, ele aproveitou para falar mais comigo:

  – Suspeito que seja uma excelente professora, dona Gláucia.

  – Pode ter certeza. Aqui, o computador já está ligado no programa que usamos na clínica – tentei soar profissional, mas ele me olhava carregado de interesse.

  – Sabe, você é tão bonita. Nunca entendi porque você prefere ficar cercada naquela mesa da biblioteca por livros como se estivesse escondida atrás de uma barricada, ao invés de curtir o intervalo e conversar com o pessoal – Pedro falou de uma maneira tão sincera e aberta que me choquei.

  – É que não é um curso muito fácil e eu preciso aproveitar todo o tempo que tenho para estar estudando. – Também tentei ser sincera, mas ele pareceu não gostar.

  – É que você pega um pouco pesado, não acha? – (Ele era esperto mesmo: conseguia ir digitando as fichas que eu passava para ele e não parava de tentar me conhecer. E eu marcando bobeira durante todo aquele tempo, achando que eu não tinha chance, putz.) – Eu até falo para o pessoal que eu aposto que você é mais interessante do que eles acham e sabe de muitos assuntos por ler tanto. Mesmo que em geral, você fique calada o tempo todo e parecendo sempre tão ocupada que dá até meio medo de acabar lhe incomodando.

  Pedro parou de digitar e me olhou de forma fulminante, mostrando o quanto que queria se aproximar mais de mim – oh, eu vou ter que dar um jeito de me acostumar com tudo isso e aprender a ser mais articulada.

  – Você não acha que devemos nos dedicar mais aos estudos do que às festas? – Eu quis testá-lo. Parecia estranho ele ser tão enturmado, gozador e viver em rodas e agora tentar bancar o responsável. Apesar de meu coração estar agitado, eu queria manter a sensatez e ver qual era a dele.

  – Festas são importantes recompensas após muitas horas de estudos e bem aproveitadas. Sigo métodos de estudos para estudar de forma eficiente, mas sem ter que abrir mão de minha vida. Aliás, criados pelo meu próprio pai, o psicanalista Eduardo Munhoz.

  Surpreendi-me com como ele era rápido de raciocínio. E de fato eu sabia como o pai dele realmente era famoso.  – Se você quiser, eu posso lhe ensinar como estudar de forma melhor e vai sobrar tempo para você de repente, se quiser… ir em alguma festa comigo e ver que não é tão ruim assim e o pessoal é bem legal.

  Aquilo realmente soou tentador e não tinha como eu recusar aquele homem que a vida estava me oferecendo de bandeja, depois de passar meses babando por ele. Mas depois eu fui vendo que o que mais me encantou no Pedro foi a incrível capacidade dele de organizar as coisas e de simplificar. Ele realmente me fez perceber que apesar de estudar duro, eu me esforçava além da conta e que por isso eu até me sentia angustiada com freqüência, sempre com matérias novas para ver e o tempo era uma constante: eu não tinha como aumentar minhas horas do dia na mesma medida em que estavam aumentando as coisas para eu fazer, porém, eu notei que com organização, minha vida se tornou muito melhor.

  E até estava sobrando tempo para ir às festas com o Pedro e me sentir muito mais livre, descobrindo com ele que apesar de tudo que os livros nos ensinam, precisamos nos permitir que pessoas também nos ensinem coisas especiais, porque às vezes achamos que estamos protegidos e certos em nossas próprias ideias sobre os outros e é bom poder sair de nossa zona de conforto de vez em quando e perder o medo de se entregar para as surpresas da vida.

Por Gigi Pormei

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