Manias Secretas

Sempre fui uma mulher muito séria porque meu ramo exigia isso: nervos de aço e postura séria o tempo todo, pois era a diretora de uma editora de e-books e gostava de levar meus negócios com punho de ferro. Afinal ser empreendedora não é fácil e sempre direcionei toda a minha energia e foco para o meu trabalho.


Mas desde que aquele rapaz o Ibraim Camacho apareceu pedindo para avaliar o novo romance dele, eu me tornei uma verdadeira maníaca por ele.


Era um escritor de romance erótico já conhecido nas redes sociais e gostei muito da desenvoltura do texto dele, tanto que fazia tempo que eu não me sentia molhada e excitada com tanta facilidade assim.


Não só assinei contrato com ele, como também fiquei viciada em seus contos e passei a virar madrugadas lendo tudo que ele publicava em suas redes. Obcecada, eu me via em cada uma de suas personagens, e não importava o nome que ganhasse o “mocinho”, para mim, todos eram Ibraim…


O problema é que uma editora de e-books não tem um vínculo tão direto e constante com seus autores como uma editora convencional e isto significava para eu ter menos contato com o Ibraim do que eu gostaria.


Também não sei o que ele iria achar de eu, uma mulher já acima dos quarenta, desejando um contato mais próximo com ele que só tinha vinte e cinco anos, mas era um rapaz muito introspectivo, tanto que em sua bio dizia ainda estar solteiro, o que me motivava a continuar testando até onde eu poderia ir.

Ele também era muito devagar para entender minhas investidas e comecei a ficar preocupada. “Será que ele é daqueles tipos de intelectuais que só pensam e nem sobra tempo para ir para a cama?”, era uma dúvida que me corroía com freqüência.


Então depois de dois meses sem avançar nada com ele, decidi criar um perfil fake para tentar me aproximar dele: achei uma foto de uma moça em um banco de imagens gratuito, criei um nome falso para mim “Isa_Bela”, para brincar com o nome que escolhi, e comecei a elogiá-lo em cada postagem, louca para que ele me notasse e ansiosa para que ele me respondesse.


Fiquei assim, dando like e sempre comentando e fazendo perguntas por pelo menos um mês. Infelizmente, ele era o tipo de pessoa que jogava suas postagens carregadas de inteligência e sentimento como uma chuva dos deuses para um povo faminto e depois voltava para seu Olimpo e não tinha mais porque se preocupar com as formigas lá embaixo.

Comecei a ficar irritada e achando que ele era apenas mais um artista esnobe, mas certa manhã, vi uma notificação em meu celular de um e-mail novo, e caramba!, finalmente ele tinha me respondido.


Contudo, levei um balde de água fria: ele estava dizendo que meus comentários eram muito quentes para seus perfis e que se eu continuasse, teria que proibir todos os comentários porque não queria passar uma imagem falsa para as pessoas.

“Ora, agora é minha culpa se você me deixa pegando fogo, seu moleque?”, pensei com raiva, mas não custava tentar puxar mais o anzol dele, e ficar o testando enquanto ele ainda estava prestando atenção em mim, mesmo que através de minha fake e arrisquei a escrever:


“Para um escritor hot, você é muito retraído.”


E não levou nem uma hora para ele realmente tirar a sessão de comentários do ar, porque minha rotina agora era, de hora em hora, ver se ele tinha publicado algo pelas redes, e qualquer demorinha eu já me preocupava toda – por sorte, minha assistente estava me ajudando, mas eu fazia um pouco a editoração dos livros e já corria para atualizar as páginas dele no meu navegador, esperando qualquer linha que pudesse servir de faísca para me deixar ainda mais acesa por ele.


Só que eu tinha recebido agora um e-mail pessoal dele! Ele tinha conseguido achar meu e-mail que deixei escancarado mesmo em minha bio e veio falar comigo! Finalmente as coisas estavam ficando mais diretas entre a gente.


E de novo, levei outro fora:

“Eu já tenho namorada e não preciso ficar expondo minha vida íntima em meus trabalhos. Lá são meus personagens que falam e que existem.”


Hummm… Resposta bem profissional. Mas como eu o acompanhava em todas as redes ou ele estava namorando com uma fantasma, porque nunca o vi em nenhum foto recente com alguma garota ou então, ele chamava os namorados de namorada. Mas ainda assim, eu não iria desistir com um fora amador desses e enviei para ele:


“Pois então me trate como uma personagem sua e venha fazer comigo tudo que você desejar escrever para sua próxima criação.”

Caprichei na resposta, mas fui castigada com uma espera de horas. Então terminei de cuidar de meus afazeres do dia, peguei meu carro para voltar para casa, preparei um macarrão instantâneo – isso tudo checando meu celular a cada meia hora, só que nada dele… O vazio e o vácuo em que ele me deixou já estavam me dando nos nervos -, mas pelo menos ele respondeu à noite com um pedido de videoconferência.


“Ai, minha nossa!”, exclamei por dentro, desesperada. Por que depois de tanto cutucá-lo, eu finalmente consegui motivá-lo a falar ao vivo comigo, mas eu não tinha o rosto de uma menininha de vinte anos nem a pau. Por mais que eu usasse creme e pintasse meu cabelo, já dava para notar os sinais da idade, e logicamente, ele perceberia que estaria falando com sua editora e dona da livraria pela qual ele estava lançando sua primeira série.Ivana, é isso que você quer, então vai fundo! – Falei para mim mesma e aceitei o convite, afinal, eu era boa para inventar algo de improviso.


Ele estava lindo no quarto dele com uma blusa de frio verde escura, seus cabelos pretos e ondulados até os ombros e seus óculos que o deixavam com um jeito intelectual ainda mais excitante. Pena que sua expressão era de total assombro quando me viu do outro lado.

-Dona Ivana? É a senhora? – ele me perguntou, e pude ver que ele clicava no programa em seu computador, achando que por alguma razão minha videoconferência entrou no lugar da chamada que ele queria fazer com a minha fake Isabela.

-Oi, Ibraim – respondi, sem conseguir disfarçar o sorriso de encantamento e o tom de sedução na voz, e isso deixou o rapaz ainda mais tenso.

-Desculpa, a senhora deseja falar alguma coisa sobre a outra edição que a senhora disse que me mandaria na sexta? É que agora infelizmente não é um bom momento. Estou com um problema com outra pessoa aqui – Ibraim falava rápido, e devia estar clicando que nem louco nas configurações do programa, tentando entender o que houve que minha chamada não apareceu para ele clicar, e quando ele ia receber da Isabela, recebeu a minha. Fiquei com pena de vê-lo naquela angústia (apesar de toda a angústia que ele já havia me causado) e resolvi arriscar tudo, porque só eu sabia o quanto que eu não agüentava mais esconder meus sentimentos e precisava entender o que ele queria.

-Você queria falar com a Isabela, não é? Então, não existe Isabela nenhuma. O tempo todo fui eu. Sou eu que quero experimentar você todo. Mas você não iria me entender se eu falasse logo de cara para você e precisei criar a Isabela para ir lhe preparando para um momento que nem este agora – eu não sabia fazer rodeios, e fiquei ainda mais comovida com a cara de choque de Ibraim, mas para mim a situação naquele chove e não molha também não estava nada boa.

-Eu… eu nunca pude sequer imaginar, dona Ivana… – ele conseguiu responder, ainda boquiaberto.

-Escuta, Ibraim, por favor, não me chame mais de “dona” nem de “senhora”, mas de você. Sabe, falar tudo aqui no online não tem muita graça. Acho que seria melhor sairmos para tomar um café e conversarmos direito, porque também sinto que tenho um dever para com você de explicar tudo que está acontecendo. Claro, se você ainda quiser me ouvir – falei com honestidade pela primeira vez com ele, e estava com as mãos suando, ainda bem que ele não podia ver, porque eu me sentia culpada de não ter sido transparente logo no início e ter me refugiado naquele fake, porém, ele me deu uma bela surpresa:

-Mas é lógico que sim! Sei que já está um pouco tarde, mas será que pode ser ainda hoje?

-Sete horas não é tarde não, querido. E posso sim – Ibraim devia ser muito caseiro para pensar que já era tarde e ri com o modo dele de falar.


Marcamos em uma padaria no centro, próxima tanto do meu condomínio quanto do prédio dele e em quarenta minutos, finalmente eu estava de frente para aquele rapaz que havia chacoalhado meu mundo de cima abaixo.

Muito gentilmente, ele continuou me cumprimentando com um abraço, e sentir o cheiro de colônia dele e a energia gostosa que ele me transmitia mesmo com uma jaqueta grossa naquela noite fria paulistana, fez-me tremer por inteira e fiquei ainda mais corada e não só pelo vento.


Era bom voltar a me sentir tão viva, coisa que eu não sentia desde que meu marido havia morrido e me deixado a editora. Com muita elegância, Ibraim puxou a cadeira para que eu me sentasse e chamamos a garçonete para cada um pedir um expresso e também um doce qualquer, porque para mim, nada era mais doce do que aquela carinha de rapaz ainda com tanto para conhecer do mundo e que eu amaria ensinar.

-É Ivana, você me pegou de surpresa – começou ele, com jeito de que estava se esforçando para se abrir.

-Eu não sabia de que maneira chamar sua atenção e esta foi a melhor forma que encontrei – continuei sendo bem sincera, pois não queria que ele pensasse que eu era um tipo de mulher falsa, porque um relacionamento precisa ser baseado na verdade… Se é que algo começaria naquela noite – eu tinha minhas esperanças, mas também meu senso de realidade e estava vestida e maquiada tanto para uma noite quente quanto para levar outro fora e ter que voltar para casa.

-Uma que realmente me fez prestar muita atenção mesmo… – Ele se inclinou na mesa e senti que seu olhar estudava o meu rosto com interesse e lentamente descia para meu corte em V e para onde minha pele estava à mostra, e era uma pena precisar de blusa, porque eu queria mostrar a ele muito mais, porém, as expectativas eram boas para minhas intenções.

-Você sempre fez comentários bem perspicazes. Eu realmente sou um cara mais na minha, mas admiro mulheres como você, que sabem o que querem e vão atrás – Ibraim respondeu com jeito de que parecia finalmente estar abrindo sinal, e avancei sem demoras.

-Resta para eu saber se você pode estar querendo o mesmo que eu – arrisquei, jogando alto. Ibraim voltou a estudar agora os meus braços, e de repente avançou a mão pela mesa e pegou a minha que segurava a xícara, prestes a levá-la para minha boca, enquanto eu queria continuar fazendo um jogo de troca de olhares com ele. Ele alisou a pele de minha mão, e me olhando com intensidade disse:

-Obrigado por perguntar, porque isso me ajuda a dizer que é o que eu também mais quero e escondi, na verdade, por não querer importuná-la. Mas que doce surpresa você me deu – Ibraim me respondeu, e eu estava adorando sentir o calor de seus dedos percorrendo a pele de minha mão, e dei-lhe um sorriso o convidando para tudo o mais que ele quisesse e que nem precisaria falar então se era tão envergonhadinho assim, porque eu estava inteiramente disposta a continuar o observando e deduzindo como que eu iria soltá-lo todo para mim.


Finalmente a noite prometia que eu iria curar minha mania por ele, meu desejo que consumia finalmente seria saciado. E Ibraim provou que a noite não só prometeu, como também cumpriu.

Por Gigi Pormei

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